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Por Helô Beraldo

(Texto escrito para o blog d’A Casa Tombada em novembro de 2020)

Olhar para as coisas que ao redor com a garantia de saber o que elas são, para que servem, por que estão por perto. Saber exatamente de que material são feitas, as propriedades nutricionais, a resistência ao atrito, ao peso, à mordida. Certezas escolhidas e acompanhadas do aconchego da imobilidade, da permanência e, também, da impermanência, mas esta só quando decidida por seu dono – nunca por outro ser humano ou pela coisa em si. Ter respostas para todas essas coisas, sempre.

Esse olhar da certeza é enciclopédico, científico, comprovado, certeiro. Há alguns anos, foi-nos apresentado um oráculo, o que é mais que um lugar-comum e uma certeza de presença. Consultamos esse oráculo todos os dias, “de graça”, e ele garante respostas e sugestões de pensar aos humanos. Por exemplo, ao inserir a expressão “qual olhar”, já supõe a entonação da pergunta e sugere:

Dessas sugestões que apresenta, quais desses olhares você utiliza e quais deles quer conhecer? A classe gramatical, o tempo verbal, a conjugação do olhar já trazem certezas. Outras sugestões trazem dúvidas: utiliza-se o olhar ou um olhar? Por que o olhar é mais afetuoso em relação ao tio e como se sabe qual é o olhar de um homem apaixonado? Uma sugestão de pesquisa importante é a da Netflix, certeza nos tempos pandêmicos. Mas quero aprofundar a pesquisa, para deixá-la mais filosófica (será que o oráculo consegue tal sutileza?). Ao digitar “o que vemos”, o oráculo sugere:

E, em seguida, ao acrescentar o verbo “querer” ao “ver” na pergunta, ele mostra:

De todas as sugestões – indicações de livro, de aula, do apontamento da localização geográfica –, a meu ver, o oráculo resume: “Só vemos o que queremos ver”. Não há sugestão melhor e, por ser óbvia, é preciso lembrá-la sempre. E não é que foi demonstrada certa filosofia?

Saio da frente do computador e recorro a um livro muito desejado, mas que chegou por aqui há pouco, para me lembrar de como são vistas as coisas ali dentro. O título do livro é Escondido, da jornalista e escritora chilena María José Ferrada, ilustrado pelo designer gráfico Rodrigo Marín Matamoros. Com esse livro, eles ganharam o Prêmio Fundación Cuatrogatos em 2016. No Brasil, foi publicado pela editora ÔZé (que só publica joias!) em 2016, com tradução de Carla Caruso e Fernando Villalba.

Mas o que está escondido em Escondido? Ah, volto agorinha mesmo para o computador e consulto o oráculo para ver se ele mantém o tom filosofal:

Uau, nada! Nenhuma sugestão! Mas é claro, em Escondido, está escondida a poesia! Nesse oráculo, pode até ter vestígios de filosofia, mas falta, e muito, a maneira poética de olhar para as coisas.

Nos poemas que compõem o livro, há mesa, sopa, tronco de árvore, pedra, casa com chaminé, abelha e girassol, lâmpada, novelo de lã, armário, copo com água, mapa (nem esse o oráculo conseguiu prever?!), ninho, cereja, estrelas, cachimbo, lua, pedra preciosa, maçã. Todas essas coisas cotidianas, umas mais próximas de nós do que outras, estão lá. Mas o mais legal de tudo é o que María José Ferrada nos sugere, com seu olhar observador de poeta: o que está escondido nessas coisas cotidianas, o que não vemos nessas pequenas-presenças-certezas que nos cercam. É surpreendente, sensível, arranca sorrisos e aquece o coração.

Escondido é um livro-aconchego, uma esperança de um olhar menos certeiro e mais imaginativo. Com seu formato perfeito, cabe em qualquer cômodo, estante, mesa. Sua capa dura o protege nas quedas. Suas páginas encorpadas devem ser folheadas, lidas e relidas sem restrições de vezes e de duração de tempos. Fica aqui o convite para conhecer a poesia do que compõe e enriquece as coisas cotidianas, mas fica também um alerta: o veículo escondido neste livro nos transporta para o lugar da imaginação – esse precioso, mas não devidamente valorizado, lugar incomum –, sem escalas.


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