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por Helô Beraldo

(Texto escrito para o blog d’A Casa Tombada em julho de 2020)

O coração do livro é abraçado por suas capas. Ali, naquela materialidade tecnicamente chamada miolo (mas é onde está o coração!), há uma experiência de escrita, de vida, que não pode ser repetida, mas pode, infinitas vezes, ser lida, sentida, vivida, recontada.

Abro o livro ansiosa pela conversa que vai se iniciar. Você também? Essa é a ponte do meu encontro com o outro, com quem o escreveu, e o lendo, decifrando as palavras, inicio uma relação com a materialidade dessa escrita e me questiono, me transporto para um mundo que desconheço, mas que generosamente me é dado a conhecer. Assim, me transformo. Como esse encontro acontece com você?

Certo dia, os Correios trouxeram o novo habitante de nossa casa, o livro Para criar passarinho, de Bartolomeu Campos de Queirós. Com projeto gráfico e ilustrações de Guto Lacaz, havia sido publicado em nova roupagem pela Global editora, de São Paulo (SP), em 2004. Arranquei o plástico transparente empoeirado e toquei aquela capa vermelha, composta por um clichê de dois naipes do baralho, ouros e espadas. Qual era esse o jogo em que eu estava prestes a embarcar? Folheei o livro para ter pistas. Do projeto gráfico, das ilustrações geométricas estilo “Descubra o que está diferente?”, das cores vibrantes, dos blocos de texto (entrelinhas e corpo das fontes enormes), ficou o lúdico.

Fecho o livro e o abro novamente. Olho e frontispício seguidos de uma dupla de páginas para a dedicatória: “A JACQUES PRÉVERT”, em letras maiúsculas impressas sobre um amarelo solar. Então, está aí a beleza: vou presenciar e participar de uma conversa entre Bartô e Prévert; Para criar passarinho e “Para fazer um retrato de um pássaro”. Procuro na estante o livro Paroles, de Jacques Prévert. Lá está no índice remissivo, marcado com uma estrelinha, “Pour faire le portrait d’un oiseau”, página 155, edição Folio, número 762. Fui transportada para o tempo da memória. Vou ler, sentir, viver, conversar e recontar essas escritas.

Para Prévert, a receita é a de desenhar um passarinho. Para Bartô, é a de criar, e de criar bem, um passarinho. A criação está em ambos. A liberdade. A beleza. O silêncio. O tempo da e para a solidão. O repouso. O espantar-se com o belo, com o simples. O céu como lar. O ar. As penas. A intimidade com o vazio, com o nada. O apropriar-se das asas, experimentá-las, e não deixar que ninguém pise nelas. A liberdade e a experimentação, sempre.

Nenhum espaço é demais para os voos. Muito menos para os repousos da alma. Esse livro de Bartô é um refúgio, um aconchego no prosear com poesia, com poetas, com quem quer compartilhar beleza. Essa conversa que tive com Bartô e, de tabela, com Prévert, me transportou para a infância, a juventude, me levou para a fantasia, para o que estava escondido em minha própria vida, neste agora, neste 2020, e não há outra coisa que eu queira fazer senão dividir essa experiência, essa prosa, com você.


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