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por Helô Beraldo

(Texto escrito para o blog d’A Casa Tombada em junho de 2020)

“Contar histórias é um jeito de nos trazermos para as pessoas.”

Assim termina o livro O homem que lia as pessoas, de João Anzanello Carrascoza, ilustrado por Nelson Cruz e publicado pela editora SM em 2007. Na ilustração que fecha a história e ocupa as últimas páginas, um menino sentado no chão da sala de sua casa, olhando para as várias folhas de papel com escritos espalhadas pelo chão, pelo sofá, formando um caminho, o caminho de sua vida até ali. Seus escritos ultrapassam os limites gráficos, vão para o mundo.

Na história contada por esse menino-narrador,

~ o cotidiano… ~

…é o ambiente. Ele tem 7 anos e, na escola, aprende as letras, aprende a juntá-las, aprende a dar sentido ao que vê impresso nas páginas. IVO VIU A UVA deveria estar em sua cartilha. Mas melhor mesmo seria IVO COMEU A UVA, não seria? O ABCedário estampado nas páginas dos livros, o aprendizado formal. Na escola, o menino aprende, também, a se colocar em palavras no mundo.

Em casa, via a mãe lendo e deixando livros espalhados por todo canto. No quintal de casa, na rua, no shopping, na lanchonete, em um jogo de futebol, aprendia a ler o mundo com o pai. Então, quando começou a escrever e a ler melhor, o pai decidiu que já era hora de ele aprender a ler as pessoas. Aprender a ler as pessoas?

“As palavras estão na testa, nos olhos, nas mãos, no corpo inteiro das pessoas.
[…] Basta olhar direito pra você ver.”

Aprender a ler o que acontece no mundo em que há essas pessoas. Aprender a se colocar no lugar do outro. Ver o si no outro, o outro em si.

Cada capítulo da história desse pai e desse filho está representado por uma letra do alfabeto:

~ A, B, C, D, E, F, G, H, I, J, L, M, N, O, P… ~ 

“E pra mim, o pai não trouxe nada?”

“Eu me trouxe pra você”, disse ele, abrindo os braços.

Fiquei sem graça, sem saber como agir.

“Não está contente, não?”, ele perguntou.

“Sim”, respondi com um movimento de cabeça. E dei um abraço nele.

~ …Z. ~

Um dia, o pai foi trabalhar e não se trouxe de presente. Um ABC interrompido, que pulou da letra P para a Z em dois dias e duas noites. Aprender a viver com a ausência de letras no alfabeto, a formar palavras sem letras fundamentais, que dão base, aconchego, alegria, confiança. A ausência do pai

“Tchau, filho!”, ele disse. “Cuida bem da sua mãe!”

“Vou cuidar”, prometi.

ficou marcada na pele desse menino. Ele era outro, as pessoas podiam ler isso nele.

Após pouco mais de dois anos, para reconciliar-se com a vida, com a morte, para honrar o vínculo que tinha com o pai, para saber ler quem foi a pessoa que o ensinou a ler o mundo, para dar vida e comprovar uma leitura que o pai fez dele,

“Você tem jeito para a coisa, filho. Vai ser escritor!”

o menino-narrador escreve.

A importância de contar-se, na escrita e na leitura, no si e no outro, quando uma infância, na virada da noite é interrompida e vira adulteza, e essa percepção da mudança fica impressa para sempre em imagens, que se transformam em palavras, mas que primeiro de tudo estão impressas na pele – de quem escreve e de quem se propõe a ler essa história.

“As folhas da árvore nem se moviam. Estava tudo parado. Não tinha vento nenhum.
Era meu pai que soprava em mim o ar de seus pulmões.”


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